“Quem é você para falar comigo nesse tom? Não fale comigo assim.”
“Mude o tom da sua voz quando falar comigo“.
Ou
“Ah, falando assim, nesse tom, eu não aguento!”
Uma coisa é certa: às vezes a forma como você fala é mais importante do que o conteúdo falado. Casais entendem bem disso. Um fala: “mas não foi isso que eu disse. E o outro responde: “mas foi o que eu entendi“.
Em 2010, por conta de um espetáculo teatral em que eu faria o papel de um juiz, participei de audiências de julgamentos, como laboratório de construção de personagens. Certa ocasião, a magistrada, dentro das práticas legais, faz uma pergunta contundente ao réu que, buscando escapar de qualquer enrosco criminoso, usa do sofismo, com raciocínio falacioso, refutando a acusação. Evidentemente foi logo interrompido pela autoridade: “se o senhor começar nesse tom comigo a gente vai ter problema. Então, vamos começar de novo“.
Para Friedrich Nietzsche (1844-1900) às vezes, recusam nossas ideias, argumentos e opiniões simplesmente porque o tom da nossa voz soa antipático, adverso ou ofensivo.
Sabemos que há um conjunto de elementos que implicam isso: a velocidade da fala, as pausas, a frequência e, todos nós já nos envolvemos em discussões gratuitas por conta do tom de voz. Como equalizar intenção, conteúdo, emoção…?
Sem falar do medo que se segue logo após ouvirmos a mais assustadora frase: “e agora passamos a palavra a…”, somos banhados de insegurança, timidez, tremedeira, sudorese, cegueira, pois a voz convocada, isto é, a nossa, tornar-se-á o centro das atenções.
Mas para não sofrermos tanto assim proponho três momentos de retomada de suas impressões acerca desse tema:
- Faça um teste: leia um texto, em voz alta, qualquer texto e, coloque intenção nesta leitura em alta voz. Grave-o com o celular. Ouça-o. Isso é um exercício teatral. Agora pense: qual foi sua habilidade de imprimir, em sua voz, as emoções propostas que você mesmo elencou para esse teste? Você já prestou atenção à sua própria voz? As suas emoções foram transmitidas, de fato, pela sua voz? Faça o mesmo com a letra de qualquer canção: leia-a, cante-a com outra intenção, diferente do habitual.
- Module o tom de sua voz quando estiver conversando com algum amigo ou amiga, amor de sua vida, filhos, enfim, apenas faça. Fale devagar, apressado, baixo, alto, risonho ou gaguejando, seja áspero, rude e, depois, doce e tranquilo. Perceba a reação deles.
- Quando você se encontrar com as pessoas, deseje “bom dia” e espere a resposta. Leia, nas entrelinhas, todas as respostas. O desejo de bom dia retornado foi sincero?
No Livro A história de Don Juan, de Alessandro Baricco, encontramos um homem que usa sua voz para aliciar, seja lá quem for. Não sei você, mas eu já encontrei pessoas que parecem que sofrem da Síndrome de Don Juan, um transtorno caracterizado pela compulsiva necessidade de seduzir. Você simplesmente pergunta: “Olá, tudo bem?”, e a pessoa já muda o tom da voz, vem com um corporal molejo de molusco ou olhar canino para o biscoitinho de ração. Acompanhado, é claro, de uma charmosa e sonora resposta banhada de encantos: “Tuuuuuuuudo, e você?”. (Deus me livre).
Logo, para não nos tornarmos uma Kaa, a enorme píton indiana que, com voz sibilante, revela seu desejo em devorar o menino Mogli, se faz necessário entrar em contato com sua própria voz, compreendê-la e aprimorá-la de maneira congruente ao que se deseja transmitir, somando mais valor e sustentabilidade à própria expressão verbal.
Repertórios claros e específicos, fonoaudiologia e a teatralidade, nos ajudam a mudar e a controlar o tom de nossa fala – do ritmo ao volume, da intensidade à intencionalidade. Enfim um tom de voz errado, seja com alguém ou em um ambiente, pode acabar com toda uma comunicação bem-intencionada. Atenção e refinamento à forma como falamos é muito importante pois “palavras gentis podem ser curtas e fáceis de falar, mas seus ecos são verdadeiramente infinitos” (Madre Teresa de Calcutá).



